O primeiro a ceder não pode ser aquele que nada tem, mas aquele que possui os meios matérias da cedência, o detentor do poder político e económico
Entrámos em 2026, um ano que se revelará a final desastroso ou vitorioso para a causa dos trabalhadores. Porque as forças actuais, sobretudo políticas, são favoráveis ao capital, bastará todavia resistir à onda de choque contra o trabalho para no fim a resistência sair vitoriosa.
«No dia 28 de Maio de 1969, a paciência das mulheres atingiu a saturação. E, num momento impensado, as máquinas pararam como que por milagre. (…) Uma voz menos avisada gritou: Vamos embora! (…) Tratou-se de uma reação espontânea. Não foi pensada nem programada. As próprias interventoras ficaram mudas, espantadas. A paralisação durou uma hora e meia ou duas horas, não mais.»
Em Unhais da Serra, na Penteadora, o patrão quis impor que cada mulher passasse a trabalhar com 800 fusos em vez de 400 como até aí. Resultado: sobre-exploração brutal, despedimentos, impossibilidade física de execução, desadequação das máquinas, desperdício de material, fio imperfeito e duplicação do tempo de paragem das máquinas. Prejuízo em vez de lucro a dobrar. O conflito cresceu até ao confronto, em 25 de Novembro de 1969.
«Pelas seis horas da manhã, vários elementos da GNR (…) bloqueavam a entrada nas instalações fabris identificando as pessoas, uma a uma. (…) a GNR entrou também. Em frente das máquinas cada trabalhadora ocupava o seu local de trabalho, esperando que o encarregado ligasse a corrente eléctrica, para iniciar a laboração.
O relógio indicou a hora, o quadro da corrente foi ligado, as luzes acenderam-se, mas as máquinas mantiveram-se imobilizadas e silenciosas. Um vazio enorme pairou como fantasma sobre a atmosfera daquele salão transformado em quartel e praça de armas. Ninguém se moveu, ninguém esboçou qualquer som. Em frente das máquinas os braços caídos davam o mote da resistência (…) de braços caídos a greve acabara de nascer. A GNR mandou trabalhar, mas ninguém obedeceu. Um GNR dirigiu-se à Alexandrina apontando-lhe a arma: - Menina, ou põe já a máquina a funcionar ou eu disparo. – Se eu fosse algum mosquito…– retorquiu a Alexandrina ( ). (…) Casos como este sucederam-se a esmo, mas a paralisação continuou. A guarda tentou levar as operárias a abandonar os locais de trabalho, mas elas responderam que cumpriam o dever de garantir a integridade das máquinas, da matéria-prima, das instalações. (…)
Vinham em grupos, silenciosos, (…) estavam ao corrente da situação. Ao cruzarem-se com as que saíam, cabisbaixas e tristes, deixavam transparecer uma firmeza até ali jamais revelada. A GNR foi rendida por novas unidades (…). Não adiantou que os ponteiros do relógio apontassem as catorze horas. De nada serviu ligar o quadro da corrente eléctrica. As máquinas registavam a presença das trabalhadoras, mas não se moviam.
As ameaças, as intimidações e provocações grosseiras, assumiam-se mais duras e impiedosas do que durante a manhã. O povo, disperso nos passeios, assistia comovido e estupefacto àquela marcha cadenciada e silenciosa. Havia lágrimas de raiva de mistura com a alegria de terem resistido. A greve revelava-se um instrumento de luta mais poderoso do que se imaginara. (…)
Passados dois dias, a repressão chegava ao rubro. Se um GNR escarnecia, logo outro ofendia, mais outro empurrava, um quarto ameaçava apontando a arma, um quinto espancava como um louco de olhos vendados. Era pancada cega. (…) O Natal aproximava-se. A marcha silenciosa em direcção à fábrica aumentava a curiosidade e espanto da população. As famílias mais débeis e necessitadas começavam a esmorecer perante a falta de pão. Só assim a GNR conseguiu um triunfo (…) vergonhoso. As operárias capitularam ao cabo de duas semanas de luta.» ( ) Mas os 800 fusos caíram.
A Penteadora ainda existe em Unhais, marca negra da exploração capitalista, exemplo de mesquinhez e néscio patronal, estandarte da argúcia e coragem das mulheres fiadeiras.
TRANSPÔR A BARREIRA DO MEDO…
Estas valentes e corajosas mulheres, que há 56 anos protagonizaram a afronta ao patrão e à repressão fascista eram e são pessoas como todos nós.
Tiveram a seu favor duas armas que usaram com mestria: a razão na defesa dos postos de trabalho e do modo qualificado de laboração da fiação e transpuseram a barreira do medo.
Os trabalhadores deste malfadado 2026 têm já a seu favor a razão da defesa do seu salário e dos direitos que, em vez de espezinhados, devem ser ampliados e garantidos. Pela frente têm uma situação nada vantajosa, mas bem melhor em meios, organização e alcance do que aquela em 1969. Têm a seu favor a força da razão e da justeza das reivindicações. O malvado pacto laboral, a vingar, é um desastre para os direitos e o bem-estar dos trabalhadores. Os salários têm que aumentar, dê por onde der. O combate defronta forças mas confronta também o medo sob diversas formas.
O medo supera-se como foi superado em centenas de milhares de casos passados.
… E NÃO TER MEDO DE TER MEDO!
Querem que tenhamos medo. Tudo fazem, tudo inventam e tudo maquinam para gerar medo, sobretudo para ter medo daquilo que eles têm horror de que não tenhamos medo.
Se tivermos medo eles ganham. Se não tivermos medo nós ganhamos. Se tivermos medo nós cedemos direitos. Se não tivermos medo somos nós que conquistamos direitos. Se tivermos medo perdemos força. Mas se não tivermos medo, avançamos e ganhamos mais força para nunca mais termos medo do medo que nos impingem.
Ter medo é ter a consciência de que haverá sofrimento, alguma perda e contrariedades. Não ter medo é saber e ter a certeza que o sofrimento é efémero e compensará, porque é sem medo que o mundo pula e avança.