António Marques
MUITOS AUTORES FORAM PERSEGUIDOS OU PRESOS DURANTE A DITADURA FASCISTA
Ler um dos muitos livros proibidos pela ditadura na aragem de uma bela praia é a nossa sugestão para estas férias. «Quando Os Lobos Uivam» (Aquilino Ribeiro); «Bichos» (Miguel Torga) e «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» (José Saramago) são três dessas propostas.
Durante 48 anos, a política fascista era feita de silêncios, de calar tudo o que fosse considerado “propaganda subversiva”. A censura sujeitou os que tinham a escrita como profissão. Os jornais, as revistas, os livros e outras manifestações culturais eram cortados previamente ou simplesmente proibidos. Fugir ao “lápis azul” passou a ser uma arte construída em subtilezas e truques para iludir a vigilância policial, e uma forma de resistir sem liberdade de expressão.
Os motivos para as obras serem proibidas, apreendidas ou retiradas de circulação iam desde crítica política ao regime até acusações de “imoralidade”, “comunismo”, “anticlericalismo” ou “subversão”.
A censura fascista proibiu ou apreendeu mais de 900 obras, mas o número pode mesmo ser maior, já que, em 1984, a Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista estimou em cerca de 3300 as obras censuradas, sendo alguns dos seus autores alvo constante de cortes, apreensões, proibições ou vigilância policial pela PIDE.
A exacta extensão das actividades da Direcção dos Serviços de Censura ainda se ignora, porque as suas instalações, em Lisboa, foram invadidas por populares em 26 de Abril de 1974 e parte da documentação perdeu-se. Estima-se, porém, que, de 1934 a 1974, a censura oficial do Estado Novo produziu mais de 10 mil relatórios de leitura de livros de autores portugueses, lusófonos e estrangeiros, em edição original ou tradução, que entravam em território nacional.
NA DÚVIDA, CENSURAVA-SE!
Ao contrário dos periódicos, a censura aos livros operou num sistema pós-impressão e publicação. Apesar de ter havido propostas e legislação do regime para torná-la prévia, como nos jornais, raramente se efectivou. Ainda que alguns escritores, tipografias e editores enviassem manuscritos, dactilografados ou provas aos serviços de censura, a maioria dos livros chegava por apreensão ou requisição. A PIDE apreendia exemplares nas tipografias, livrarias e editoras, mas também durante as rusgas ao domicílio, enviando-os posteriormente para a Censura.
Em alguns casos, as razões da proibição beiravam o ridículo. Escrever a palavra «vermelho», por exemplo, podia levar a um corte, porque os censores (de início, militares) podiam ficar na dúvida se o «vermelho» se referia ou não a comunista. E, na dúvida, censurava-se! Por vezes, a Censura só não actuava para que uma proibição não acabasse por fazer publicidade adicional à obra.
BIBLIOTECA DA CENSURA
«Quando Os Lobos Uivam» - Aquilino Ribeiro. Um dos casos mais famosos da censura. O romance denunciava abusos do Poder Local, repressão policial e arbitrariedade do regime.
«Bichos» - Miguel Torga. Aquela que é, possivelmente, a sua obra mais conhecida, foi também um dos alvos da censura. Além de vários livros censurados (caso também de «Diários»), Miguel Torga foi um dos escritores mais vezes preso pela ditadura.
«O Evangelho Segundo Jesus Cristo» - José Saramago. Curiosamente, o caso de censura mais sonante que o afectou ocorreu já em democracia, em 1992, quando o subsecretário de Estado da Cultura do governo PSD, António Sousa Lara, vetou a candidatura da obra ao Prémio Literário Europeu, alegando que este ofendia os católicos. Esse episódio levou o escritor, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, a auto-exilar-se na ilha de Lanzarote (Espanha).
MELHOR PRAIA DA EUROPA
A par dos livros sugeridos, propõem-se igualmente a Praia de Monte Clérigo, no concelho de Aljezur, eleita este ano a melhor praia da Europa, entre outras razões, pela forma como valoriza a natureza e a autenticidade, onde o alojamento na zona pode ser até três vezes mais barato do que em destinos mais conhecidos do País. A praia integra o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, onde não faltam percursos pedestres e cicláveis, para complementar as propostas de leitura...